MAIS UMA CHANCE
Daniel Cristal

Só mais uma. Uma só que seja concedida por compaixão aos homens deste planeta.
Uma oportunidade piedosa, uma que seja misericordiosamente concedida por um choro de
alma sentida, sofrida, uma chance que será agradecida por todas as fímbrias do ser humano,
dentro dos seus interstícios, e aí permaneça para sempre. Uma que seja oferecida
gratuitamente para expiar todos os erros cometidos até aqui e agora na viagem empreendida
aos trambolhões, aos arrastões, às cotoveladas. Oh, se, mais uma chance, me fosse dada,
quanto erro iria ser evitado! Por generosidade, concede esse favor!

Será possível pedir assim ao Deus da Harmonia, mais uma oportunidade para começar de novo?
Para iniciar tudo do zero, rasar e aplainar toda a tábua, e voltar a percorrer o caminho
de uma vida, de uma existência sofrida? Tantos erros cometidos, só entendidos no final de
cada um, consciencializados na repetição do mesmo acto irreflectido, consciencializado o
engano danoso na madureza da idade, nesta etapa final, neste período de desova,
ou do poisio, da libertação, na descarnação, neste tempo final, que agora de nós arremeda,
como se fôssemos eternos aprendizes a precisar de um recomeço quando se questiona a substância do trajecto seguido e o modo como foi percorrido, em cada ocasião em que foi necessário escolher, optar e decidir.

Só mais uma, uma vez concedida pela graça do núcleo divino que nos mantém vivos até ao
fim natural de todos os tempos, ou acidental de todos os acasos, sortes e azares, que são pura imaginação ou abstracção insustentável no mistério que causa sofrimento; só mais uma chance,
assim na forma humana, sendo a mais ingrata e difícil, mas não para expiar o mal do mundo,
e outrossim para deixar uma obra pelo exemplo, uma obra simples, muito leve, etérea,
extremamente volátil, aérea, uma existência fluída que fique como paradigma da leveza
confundida com a felicidade das coisas puras insustentáveis; poderia até ser larvar,
um casulo capaz da metamorfose.

Só mais uma vez, voltar, e recomeçar. Porém, na consciência do trajecto percorrido,
do terreno acidentado que nos levou até aqui, com todas as mazelas expostas das feridas
sofridas nas quedas, nas escorregadelas, nas rasteiras maldosas e espertas que nos pregaram,
nas humilhações a que fomos sujeitos pela vileza e pela madureza dos inescrupulosos.
Na profunda consciência do passado. Não na aventura, nessa tentativa de encontrar o rumo
certo, sem conhecimento perfeito das coordenadas mais correctas. Esta não será certamente
a melhor via. Felizes os que voltaram com a massa moldada, com o corpo e a alma macerada no
passado sofrido! Felizes os que foram verdadeiramente renascidos com toda a acumulação de
erros cometidos, deles consciencializados!

É imperioso voltar, torna-se imprescindível regressar para se consertar tudo o que foi
desconserto. Regressar com os erros entronizados, amassados no sangue e na alma; que não
está garantido eu ler o que agora digo, no próximo regresso noutra forma e noutra carne...
Para minha infelicidade, essa dói-me por não ter a certeza de tudo o que há-de acontecer,
talvez nem me seja permitido outra chance igual à que tive, e me deixou às vezes amargurado,
outras renascido. Todavia, no fim e no fundo, compreendo todos os ricochetes que recebi,
todos os reflexos onde me revi, todos os refluxos que suportei. E confessemos: alguma falta
de mestria na escolha, falta de saber no torneamento dos problemas surgidos,
falta de cuidado nos momentos em que é preciso firmar o rumo.
Não soube evitar o lodo ou o ambiente fétido em algumas ocasiões, não soube evitar a má
companhia, e evitar o confronto com os depredadores de almas e bens, os valdevinos, os matreiros, não estive sempre alertado para os perigos da traição, do engodo e da mentira, e não evitei a tempo e frontalmente as serpentes do veneno.

Também aqui e agora. Também posso recomeçar. E recomeço... contudo, num tempo em que me
falha a força da reconstrução integral. Em que tudo é um pouco improvisado pela minha falta
de futuro pleno. Esse, pleno de vigor, prenhe de esplendor a que já tive jus, e não soube
aproveitar na sua plenitude. Pois que, para meu pesar, ou a minha amargura mais profunda,
a luz bruxuleante nunca alumia com a intensidade de um sol em pleno fulgor.

Ah, sim... se me fosse possível regressar agora na plenitude do entendimento, ou amanhã
ou depois, a saber o que sei hoje! Seria, certamente um bom regresso,
postas de lado as cangalhas que só nos atrapalharam, e tolheram o passo mais acertado,
atrasando a marcha e a dança, no sentido inverso da sabedoria, que, esta sim,
é a verdadeira felicidade, e enganosa também para quem julgar tê-la obtido no absoluto,
porque se está sempre no limiar, sempre aquém, contudo, ter consciência disto mesmo
é cumprir a evolução que nos é proporcionada. Ai, quem me dera, criá-lo,
como um paisagista, neste espaço concreto, o meu jardim interior,
e partilhá-lo com os que, na descoberta, estão simultaneamente dentro!

Cullera, Junho.2006

 
 
 

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